Um vídeo de um apresentador famoso pedindo voto, uma ligação da “sua mãe” pedindo Pix urgente, um executivo autorizando uma transferência por chamada de vídeo: os deepfakes saíram do laboratório e viraram ferramenta de golpe no Brasil. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já trata o tema como prioridade, e a boa notícia é que dá para aprender a desconfiar. Veja os sinais que expõem um deepfake e o que fazer se você for alvo de um.
Resposta rápida
Deepfake é um áudio, foto ou vídeo criado ou alterado por inteligência artificial para parecer real. Para identificar, preste atenção em 4 sinais: piscar e sincronia labial pouco naturais, expressão emocional que não combina com a fala, inconsistências de pele, luz e sombra, e áudio com ruído ou fora de sincronia. Na dúvida, desconfie de qualquer pedido urgente de dinheiro feito por vídeo ou ligação.
O essencial
- O que é: mídia sintética gerada por IA, definição da ANPD
- No Brasil: alta de 126% em golpes com deepfake em 2025 (Sumsub/ANPD)
- Fatia da região: Brasil concentra 39% dos casos da América Latina
- 4 sinais: olhos e boca, emoção, inconsistência visual, áudio
- Se for vítima: não compartilhe, denuncie e registre B.O.
O que é um deepfake
A ANPD define deepfake como “áudios, fotos e vídeos modificados ou artificialmente criados por meio da inteligência artificial generativa, com elevado grau de realismo”. O nome vem da junção de “deep learning” (aprendizado profundo, a técnica de IA por trás da tecnologia) com “fake” (falso). Na prática, um algoritmo é treinado com fotos, vídeos ou áudios reais de uma pessoa e aprende a reproduzir seu rosto, seus gestos ou sua voz em um conteúdo que ela nunca gravou.
A tecnologia em si não é golpe: existem usos legítimos em dublagem, cinema e acessibilidade. O problema é quando ela é usada para enganar, e é exatamente esse uso que vem crescendo mais rápido no Brasil.
Deepfake no Brasil, em números
Um levantamento da empresa de verificação de identidade Sumsub, citado pela própria ANPD em seu Radar Tecnológico sobre deepfakes, mostra a dimensão do problema por aqui:
| Indicador | Número (2025) |
|---|---|
| Crescimento de golpes com deepfake no Brasil | +126% em relação a 2024 |
| Fatia do Brasil nos casos da América Latina | 39% do total |
| Crescimento médio na América Latina | +201% |
| País com o maior salto da região | México, próximo de +500% |
Ou seja: o Brasil não só acompanha a alta regional, como concentra a maior fatia absoluta de casos, mesmo crescendo abaixo da média da região. Isso acontece porque o país já tinha um volume grande de fraude de identidade antes da onda de deepfakes, e agora, segundo a ANPD, essa tecnologia se soma às fraudes tradicionais em vez de substituí-las.
A própria agência lista os principais riscos que monitora: pornografia não consensual, violência de gênero, desinformação em contexto eleitoral e golpes financeiros com voz, imagem e identidade clonadas. Você pode ler o comunicado completo na página oficial da ANPD sobre o Radar Tecnológico de deepfakes.
Os 4 sinais para identificar um deepfake
Segundo orientação do governo do Espírito Santo (Prodest) sobre o tema, quatro grupos de sinais ajudam a desconfiar de um vídeo ou áudio:
| Sinal | O que observar |
|---|---|
| Olhos e boca | Piscar pouco natural e lábios fora de sincronia com a fala |
| Expressão emocional | O rosto não reage do jeito esperado para o que está sendo dito |
| Inconsistências visuais | Diferença de tom entre o rosto e o resto do corpo, luz e sombra que não batem |
| Áudio | Ruído de fundo exagerado ou voz dessincronizada com o movimento da boca |
Nenhum desses sinais sozinho prova que um conteúdo é falso, e vídeos mais recentes já escondem boa parte deles. Por isso a orientação oficial é somar os sinais visuais ao contexto: se o vídeo pede uma ação urgente (transferir dinheiro, clicar num link, ignorar um alerta do banco), é mais motivo para desconfiar do que qualquer detalhe técnico isolado.
Golpes reais que já usam deepfake no Brasil
O golpe mais comum hoje não usa um deepfake perfeito de corpo inteiro: usa poucos segundos de voz clonada, suficientes para simular uma ligação de emergência de um filho, pai ou cônjuge pedindo Pix. Bastam alguns segundos de áudio público, como um vídeo em rede social, para o golpista treinar a clonagem.
Outra frente é o vídeo de IA usado para validar um golpe de investimento: nossa redação já apurou um caso em que uma falsa plataforma de rendimento diário usava um vídeo gerado por IA para orientar a vítima a marcar, durante um Pix, a opção de que “não é golpe” quando o próprio banco emitia um alerta de fraude. Veja os detalhes em golpe usa vídeo de IA pra convencer você a ignorar alerta do banco. Há ainda casos, amplamente registrados no país, de deepfakes de apresentadores e figuras públicas usados para divulgar falsas promoções ou pedidos de doação.
Fui vítima (ou vi um deepfake meu circulando). E agora?
- Não compartilhe nem responda ao golpe, mesmo para desmentir: isso só amplia o alcance do conteúdo.
- Salve provas antes de denunciar: print, link e, se possível, o vídeo ou áudio original.
- Denuncie na própria plataforma (todas as redes sociais têm política contra mídia sintética enganosa).
- Registre um boletim de ocorrência, de preferência na delegacia eletrônica do seu estado.
- Se envolveu dinheiro, acione o banco na hora, como no golpe do Pix.
- Avise seus contatos se sua imagem ou voz foi usada sem autorização, para que ninguém caia no golpe em seu nome.
O que isso significa pra você
Na prática, o avanço do deepfake muda uma regra antiga de segurança digital: ver (ou ouvir) já não é garantia de que algo é real. A defesa não depende de identificar tecnicamente um deepfake, um trabalho cada vez mais difícil até para especialistas, e sim de desconfiar do pedido, não só da imagem. Uma ligação, por mais real que pareça, pedindo dinheiro ou uma ação urgente merece sempre uma confirmação por outro canal antes de qualquer atitude.
Regra de ouro
Se um áudio ou vídeo pede uma ação urgente envolvendo dinheiro, senha ou dado sensível, pare e confirme por outro meio, como uma ligação para o número que você já conhece da pessoa. Essa pausa vale mais do que qualquer sinal visual de deepfake.
🔗 Leia também
Perguntas frequentes
O que é um deepfake, exatamente?
Segundo a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), deepfake é o áudio, foto ou vídeo modificado ou criado artificialmente por inteligência artificial generativa, com “elevado grau de realismo”. Na prática, é uma mídia sintética feita para parecer real: um rosto trocado, uma voz clonada ou uma cena que nunca aconteceu.
O deepfake é crime no Brasil?
Depende do uso. Não existe hoje uma lei específica batizada de “lei do deepfake”, mas usar essa tecnologia para golpe financeiro, difamação, montagem pornográfica sem consentimento ou fraude de identidade já se enquadra em crimes previstos no Código Penal, no Marco Civil da Internet e no ECA quando envolve menores. Um grupo de trabalho do governo federal discute uma definição legal específica para o termo.
Como faço para denunciar um deepfake usado contra mim?
Registre um boletim de ocorrência, de preferência na delegacia eletrônica do seu estado, guardando prints e o link do conteúdo antes que ele seja apagado. Denuncie também na própria rede social onde o vídeo circula (todas têm política contra conteúdo enganoso) e, se envolver dados pessoais ou imagem usada sem consentimento, é possível levar o caso à ANPD.
Existe programa que identifica deepfake automaticamente?
Sim, mas é uma corrida sem fim. O Radar Tecnológico da ANPD cita sistemas como o Vision Transformers (ViT), que chega a 94% de precisão em testes controlados. Na prática do dia a dia, porém, esses detectores não estão disponíveis para o usuário comum, então os sinais visuais e sonoros continuam sendo a defesa mais acessível.
Ligação com voz clonada de um familiar pedindo dinheiro é deepfake?
Sim, é uma das formas mais perigosas: golpistas usam poucos segundos de áudio (de um vídeo postado nas redes, por exemplo) para clonar a voz de alguém e simular uma ligação de emergência pedindo Pix urgente. Antes de transferir qualquer valor, desligue e ligue de volta para o número que você já conhece da pessoa.
Uma foto ou vídeo com boa qualidade pode ser deepfake mesmo assim?
Pode. A qualidade melhorou muito e alguns deepfakes recentes já não têm os erros grosseiros de poucos anos atrás. Por isso a orientação oficial combina vários sinais (olhos, sincronia labial, áudio, contexto) em vez de confiar em um único detalhe, e desconfiar sempre que o conteúdo pede uma ação urgente, como uma transferência.




